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Archive for março \29\UTC 2010

Por Carlos Thompson

Pelé e Armando Nogueira

Não existe ofício mais delicioso do que escrever. Não há esporte mais humano e metafísico – a um só tempo – do que o futebol. Quando os deuses do jornalismo e do futebol se unem, temos jogadores como Pelé e Garrincha. E artífices da prosa poética como Armando Nogueira. Quem acreditaria que, algum dia, o Brasil tivesse vários telejornais, com maior ou menor profissionalismo e amplitude? Muito menos que tal modelo de jornalismo evoluísse ao longo de uma ditadura militar. Ele fez o Jornal Nacional, com seus erros e acertos, e apontou o caminho aos demais. Armando Nogueira esgrimia as palavras com blandícia, elegância e nobreza. Gostava do Botafogo, mas admirava, acima de tudo, o futebol bem jogado, as ousadias dos gênios da bola, ludopedicamente falando. Frasista invulgar, marcou o jornalismo brasileiro com sua paixão pela notícia, sem abrir mão do gosto pela vida. Ao acompanhar os comentários de colegas, amigos e fãs do jornalista falecido nesta segunda-feira, 29 de março de 2010, aos 83 anos, lembrei-me da sentença de Confúcio: “Quando nasceste, todos riam, só tu choravas. Vive de tal modo que, quando morreres, todos chorem, só tu sorrias”. Que, devido a sua elegância em vida, seja permitido a Armando, em algum recanto espiritual, ver os jogos da Copa de 2010. É o mínimo que ele merece.

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Carlos Thompson, diretor da Casa da Notícia, escreveu artigo sobre a morte do cartunista Glauco Villas Boas. O texto foi publicado no Diário do Grande ABC, no dia seguinte ao assassinato. Veja, abaixo, o clipping.
Clique sobre a imagem para ler o artigo. 

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Quando eu cheguei por aqui – como diz Caetano Veloso em ‘Rock’n Raul’ – tudo era novidade. Entre o final de 1985 e 1986, São Paulo tinha um trânsito já complicado, mas menos caótico. E uma curiosa, para mim, etiqueta de
relacionamento que eu não dominava, vindo de uma Porto Alegre menos gigantesca e mais regionalista.

Ninguém simplesmente visitava um amigo, colega ou até familiar. Ligava-se antes, e havia uma negociação para finalmente agendar a visitar. Como se fosse uma reunião de negócios. E se você esperasse, em casa, um convite
destes, bem, ficaria velhinho antes de o receber.

 Aprendi a me comportar, digamos, com Angeli, Glauco, Laerte & Cia., pelas dicas que seus personagens nos transmitiam. E percebi também, neles, características com as quais nem sonhava. Por exemplo, compartilho com a dupla Wood & Stock a paixão pelo roque dos anos 60. Chego a repetir o mantra “parei em 1968”, que li, um dia, nos quadrinhos, em referência ao gosto musical. Digamos que parei em 1970, quando os Beatles se separaram.

Nos personagens do Glauco, ficava mais fácil entender a cultura paulistana, o modo de viver, a solidão compulsória e autoinflingida, pela correria, falta de tempo, distâncias que parecem se multiplicar em função do trânsito.
E a necessidade atávica de correr atrás do prejuízo.

A “Folha de S.Paulo” conseguiu, na edição deste sábado, 13 de março de 2010, comunicar a importância dos cartunistas em nossas vidas exibindo grandes vazios em lugar de seus trabalhos. Foi uma belíssima e sensível homenagem não somente ao Glauco, mas a todos os que labutam nesta forma de comunicação direta, engraçada, profunda e inestimável.

Glauco partiu da comunidade em torno de Céu de Maria, uma bela metáfora do desejo de se religar, a verdadeira religião, que não tem ouro nem mirra, que não tem senhores nem comandados. Esse desejo de religação lembra, um pouco, sentimentos que permeiam um ícone dos 60 (sim, voltei aos 60), George Harrison, que sempre expressou isto, de alguma forma, em canções como “My Sweet Lord”.

É o que todos queremos, espiritualistas ou céticos. Voltar a um mundo do qual não lembramos, mas que adivinhamos, palavra que deriva de ‘divinare’, divino, de Deus, da divindade.

O assassinato do Glauco não matou somente o criador. Privou-nos do contato diário com Geraldão, Dona Marta, Casal Neuras, Zé do Apocalipse, Geraldinho, Doy George, Nojinsk, Faquinha, Ozetês e Cacique Jaraguá.

Agora, eles voltarão a circular anônimos na multidão paulistana, em meio a de mais de 11 milhões de pessoas, com suas neuroses, seus sonhos e suas ideias. Estarão, também, na tiras já criadas, nos livros, nas coletâneas, nas lembranças, na Internet. Mas não haverá novas sacadas de Glauco, o que é muito, muito triste.

Que ele tenha um iluminado trajeto do Céu de Maria para a Grande Luz!

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por Carlos Thompson

O Chile tremeu, e ainda treme, de vez em quando, porque desgraça pouca é bobagem.

Quase nove graus na Escala Richter é um absurdo de terremoto – o do Haiti, que matou umas 300 mil pessoas, teve magnitude sete.

No dia do terremoto, insatisfeito com as notícias aqui divulgadas, corri a acessar os sites dos jornais chilenos. Um deles estava bem atualizado. Outro, mais importante, não.

Pensei na instantaneidade da comunicação, nos dias de hoje.

Em 1556, a terra tremeu em Shensi, na China, e matou 830 mil pessoas. Mais ou menos a população, todinha, de São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

Pensemos: quantos meses teria demorado para que as informações sobre o terremoto chegassem, digamos, à Europa? Ao Brasil, nem falo, porque ainda engatinhava como nação, sem periódicos nem cidades propriamente ditas.

A comoção que as grandes tragédias provocam é diretamente proporcional à capacidade que cidadãos de todo o mundo têm de se sentir próximos das pessoas atingidas. Ou seja, quanto mais sabemos, mais nos solidarizamos.

O Chile até fica bem perto de nós. São quatro horas e 15 minutos de voo entre São Paulo e Santiago. Menos do que demoramos, via rodoviária, para ir de São Paulo ao Rio. Quanto tempo levaria antes dos aviões de carreira? De navio, semanas, sem dúvida, porque teríamos de rodear a América do Sul, do Atlântico para o Pacífico.

A comunicação não somente encurta distâncias. Aproxima sentimentos. Irmana-nos com pessoas que têm culturas, gostos, linguagens e vidas muito, mas muito diferentes das nossas.

Júlio Verne, o genial escritor e visionário, falava na volta ao mundo em oitenta dias, já com o advento do trem. Bem, hoje, estamos instantaneamente em qualquer local do planeta, com um microcomputador ou laptop, um provedor de acesso à internet por banda larga e imaginação.

Neste mundo pequeno, todos são vizinhos. Não há antípodas, como chamávamos, no passado, lugares opostos, geograficamente, como Santa Vitória do Palmar, cidadezinha gaúcha que faz fronteira com o Uruguai, no extremo sul do Brasil, e Jeju-do, na Coreia do Sul.

Hoje, todos moramos em um pequeno círculo, abrangido por um e-mail, um post, ao alcance de um telefone celular, ou do Skype.

É por isso que o governo do Chile demitiu o chefe do Serviço de Oceanografia, que teria falhado ao fornecer informações claras sobre o tsunami ocorrido logo após o terremoto. No círculo de comunicação digital, não temos como evitar um terremoto, mas punimos a falha de informação.

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