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Posts Tagged ‘câncer’

por Carlos Thompson

Boa viagem José Alencar

O verbo morrer é um dos mais odiados. Ninguém gosta de conjugá-lo. Nem o emprega para o fim de algo negativo, como a morte de uma doença ou de uma dívida.
Não ficamos incólumes à morte nem quando antipatizamos com alguém. Temos relação protocolar, distante com o fim da vida terrena (para os que creem no espírito, na alma) ou simplesmente com o fim da vida (para os que não acreditam no transcendente).
Quando o verbo morrer se une a alguém como José Alencar, que tanto queria viver, torna-se ainda mais cruel. Ele se agarrava a pedaços de vida que descartamos diariamente, por incúria ou soberba, como um náufrago a destroços de uma navio afundado.
Bastava um pedacinho de vida, um raio de sol na escuridão da doença e das internações cada vez mais frequentes, para que se reerguesse com um sorriso.
A fé e a coragem não o abandonavam nunca. Não porque fosse angelical, mas porque superava, com sua persistência, os medos que deveria sentir.
Tornou-se um ser humano especial que, vejam só, derrotava a morte com tranquilidade, bom humor e confiança. Humano, mas acima da média.
Começou a carregar sua cruz há mais de 13 anos. Mas o fazia sem expressar ressentimento pelo peso dela.
Torcíamos por ele, como torcemos por longevos como o arquiteto Oscar Niemeyer. Eles nos dão a impressão de que podemos fazer mais, ir adiante, sobreviver a catástrofes. Viver mais de 100 anos com lucidez e criatividade.
Então, quando ele recolheu seu corpo cansado e maltratado pela doença e internações, dobramos os joelhos com ele. Nós refletimos que poderíamos valorizar mais cada segundo de vida. Olhar para o que há de bonito, gratuitamente, pronto para nossos olhos. Ouvir as melodias que emergem das ruas. Tocar o rosto de um filho, da namorada, da esposa. Conversar com os amigos. Telefonar para os pais.
Gastamos nosso tempo com admoestações, cobranças e críticas. Queimamos o único presente real que ganhamos: a vida. Um presente que, como areia na ampulheta, vai-se escoando lenta, mas inexoravelmente.
John Lennon, o genial beatle que partiu tão cedo, aos 40 anos, dizia que vida é aquilo que acontece enquanto você está planejando o futuro. Ou seja, não nos fixamos no agora, no presente já conquistado, pois passamos o tempo remoendo problemas, ou projetando alegrias vindouras.
Alencar queria viver, e viveu. Derrotou a morte que, pela ordem natural das coisas, talvez o tivesse levado cinco ou 10 anos antes. Se contarmos em anos, parecerá pouco para alguns.
Mas o vice-presidente, porque dificilmente algum outro personificará e dará o brilho que deu a este cargo, ganhou uns 157 milhões de segundos, na hipótese dos cinco anos. Quantas coisas ele viu, ouviu, sentiu e tocou a
mais neste tempo? Como medir, em vida, o que ele recebeu por sua obstinação?
Ele venceu a morte, porque não morreu antes por medo de morrer. Ele viveu mais por vontade de viver.
Não foi um super-herói, porque eles só existem na ficção, mas seguiu muito mais longe do que costumamos ir. Só isso já valeria sua passagem por aqui.
Boa viagem!

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